Por Ivo Vargas | Coluna Tempo Extra
Há situações no esporte que ultrapassam qualquer rivalidade, qualquer resultado e qualquer discussão sobre arbitragem. A agressão sofrida pelo árbitro Cassiano Leonel durante a rodada do Campeonato Municipal de Futebol de Campo de Canela é uma delas. Um episódio que causa indignação, tristeza e, acima de tudo, precisa servir de alerta para todos nós que amamos o futebol.
Conheço o Cassiano há muitos anos. Nossa história se cruza nos tempos do Gauchão de Areia, do Bola Mar e de tantas outras competições que acompanhei ao longo da minha trajetória no esporte. É um homem íntegro, experiente, que há mais de 30 anos exerce a função de árbitro. Um profissional que dedicou boa parte de sua vida ao futebol e que, assim como tantos outros, merece respeito e condições de segurança para trabalhar.
Por isso, o que aconteceu em Canela não pode ser tratado como mais um episódio de descontrole dentro de campo. A agressão contra um árbitro é uma situação grave, que atinge não apenas o profissional envolvido, mas todo o ambiente esportivo.
Eu também já estive do outro lado
Falo sobre isso não apenas como jornalista e responsável pelo Portal Tempo Extra, mas também como alguém que viveu o futebol dentro das quatro linhas.
Comecei a jogar futebol amador e varzeano aos 14 anos, quando disputei minha primeira Segunda Divisão de futebol de campo, em Tramandaí. Atuei como zagueiro, participei de muitas competições e sei bem o que significa estar em campo, disputar uma partida importante, ficar inconformado com uma decisão e, em determinados momentos, sentir-se prejudicado pela arbitragem.
Sim, já fiquei irritado. Já pressionei árbitros e sei como a emoção pode tomar conta de um jogador durante uma partida. Mas, em nenhum momento da minha trajetória, passou pela minha cabeça agredir fisicamente um árbitro.
A reclamação faz parte do futebol. A discordância também. Podemos questionar uma decisão, pedir explicações e até considerar que houve um erro. Mas existe uma linha que jamais pode ser ultrapassada: a da violência.
Precisamos lembrar que, do outro lado, há um ser humano. Há pais e mães de família, profissionais que deixam suas casas, suas esposas, seus maridos e seus filhos para trabalhar em uma atividade que, muitas vezes, não oferece a segurança necessária.
Esses profissionais entram em campo para conduzir uma partida, frequentemente cercados por jogadores emocionalmente envolvidos, dirigentes pressionados pelo resultado e torcedores que nem sempre conseguem controlar suas reações.
Nada disso justifica uma agressão. Absolutamente nada.
E não estou dizendo que a arbitragem não erra. Erra, como erram os jogadores, os treinadores, os dirigentes e todos nós. Basta acompanhar o futebol profissional brasileiro para perceber que decisões equivocadas também acontecem mesmo com árbitros experientes, assistentes, tecnologia e toda uma estrutura de apoio.
Se até no futebol profissional, com recursos muito superiores aos disponíveis no esporte amador, existem erros, por que exigir que o árbitro do varzeano seja infalível?
O erro de arbitragem pode ser discutido. A agressão, jamais justificada.
O que está acontecendo com o futebol de Canela?
O episódio envolvendo Cassiano Leonel ganha ainda mais peso quando olhamos para o contexto do futebol municipal. Em duas semanas consecutivas, a competição registrou casos de violência contra a arbitragem. É um sinal de alerta que não pode ser ignorado.
Canela ficou nove anos sem realizar seu Campeonato Municipal de Futebol de Campo. Agora, com a retomada da competição, precisamos refletir sobre o tipo de ambiente que queremos construir para o esporte da nossa cidade.
Será que esse período sem campeonato não foi suficiente para entendermos a importância de preservar o futebol municipal?
A competição precisa ser um espaço de encontro, convivência, rivalidade saudável e valorização dos atletas. Não podemos permitir que a disputa pelo resultado se transforme em um ambiente de medo e insegurança para quem está em campo, seja jogador, árbitro ou integrante da comissão técnica.
O Departamento Municipal de Esporte e Lazer (DMEL) publicou uma nota oficial de repúdio às agressões e anunciou a implementação do programa Tolerância Zero à Indisciplina, com alterações e endurecimento do regulamento das competições municipais a partir de 20 de outubro de 2026.
A iniciativa aponta para a necessidade de medidas mais rigorosas na prevenção e na punição de condutas violentas. Mais do que anunciar regras, porém, será fundamental que elas sejam aplicadas de maneira consistente, para que todos compreendam que a integridade física das pessoas está acima de qualquer resultado esportivo.
O posicionamento do Portal Tempo Extra
Como responsável pelo Portal Tempo Extra, manifesto meu repúdio à agressão sofrida por Cassiano Leonel e a qualquer forma de violência contra profissionais da arbitragem.
Nosso portal acompanha o esporte de Canela e da Serra Gaúcha, valoriza atletas, clubes, organizadores e todos aqueles que trabalham para manter vivas as competições. Defender o esporte também significa cobrar respeito, responsabilidade e segurança para quem faz tudo isso acontecer.
Não podemos nos calar diante de episódios como esse, nem tratar a violência como algo normal do futebol. A rivalidade entre equipes deve terminar onde começa o respeito à integridade do outro.
Meu apelo é dirigido aos jogadores, dirigentes, torcedores e a todos os envolvidos nas competições: revejam suas atitudes. Antes de reagir, parem, respirem e pensem nas consequências. Uma decisão de arbitragem, por mais contestável que pareça, não vale a saúde, a dignidade ou a vida de ninguém.
E quando alguém ultrapassa esse limite, é preciso reconhecer a gravidade do que fez, assumir a responsabilidade e buscar a reparação possível. O arrependimento e o pedido de desculpas não apagam o ocorrido, mas reconhecer os próprios erros é um passo necessário para que situações assim não se repitam.
Cassiano, deixo aqui meu abraço e minha solidariedade. Falo como alguém que conhece tua trajetória, que compartilhou muitos momentos do esporte e que sabe o quanto a arbitragem exige dedicação, preparo e coragem.
Que esse episódio não seja lembrado apenas pela violência, mas também como um momento de reflexão e mudança para o futebol de Canela.
O esporte precisa continuar sendo um lugar de amizade, competição, confraternização e paixão. Podemos ganhar, perder, reclamar e discordar. O que não podemos é perder a humanidade dentro de campo.
A rivalidade pertence ao campo. O respeito é obrigação de todos. A violência não faz parte do jogo.
